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Observatório dos Direitos Sociais do Semiárido - ODSS

O Observatório dos Direitos Sociais do Semiárido (ODSS) lançou na terça-feira, 23 de setembro de 2025, as bases iniciais para o projeto “Curso de Compliance e Integridade na Contratação de Organizações Sociais (OSs) em Municípios”, desenvolvido em parceria e com financiamento do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte (MPT-RN). A iniciativa integra ações de extensão vinculadas à graduação e à pós-graduação da UFERSA e combina formação continuada, produção de material prático e pesquisa aplicada, com foco em um dos pontos mais sensíveis da gestão pública municipal contemporânea: a contratação e a fiscalização de entidades privadas sem fins lucrativos qualificadas como Organizações Sociais para execução de serviços essenciais — especialmente nas áreas de saúde e educação.

O projeto parte de uma constatação institucional decisiva: integridade na contratação pública não se reduz à adoção formal de regras ou à simples acumulação de documentos. Ela exige planejamento robusto, transparência ativa, definição clara de responsabilidades, rotinas permanentes de fiscalização e mecanismos de responsabilização capazes de prevenir desvios, reduzir ineficiências e proteger direitos sociais, com atenção particular aos riscos de irregularidades trabalhistas associados a contratos intensivos em mão de obra.

Formação para a rotina municipal, com base no marco legal atual

O curso será disponibilizado na plataforma Moodle/UFERSA, com carga horária total de 20 horas, em formato autoinstrucional. Isso significa que o participante poderá organizar seus estudos conforme sua disponibilidade, avançando por módulos, unidades e atividades de aprendizagem estruturadas para apoiar a tomada de decisão e a padronização de rotinas administrativas. O público prioritário são gestores e servidores municipais que atuam, direta ou indiretamente, nas fases de planejamento, seleção, contratação, execução e fiscalização de parcerias com Organizações Sociais.

O eixo normativo do curso toma como referência central a Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos), que reorganizou fundamentos de governança das contratações, planejamento, gestão de riscos, fiscalização contratual, responsabilização e transparência. A proposta também se baseia no Decreto nº 11.246/2022, que regulamenta, no âmbito federal, aspectos da atuação de agentes e comissões de contratação, além de detalhar funções e responsabilidades de gestores e fiscais de contratos — ponto diretamente relacionado à efetividade do controle durante a execução.

Ao mesmo tempo, o curso situa o modelo de Organizações Sociais no ordenamento jurídico brasileiro, tomando como marco a Lei nº 9.637/1998, que disciplina a qualificação de OS e sua atuação em atividades de interesse público. A abordagem proposta, contudo, não é meramente conceitual: o foco recai sobre as condições de integridade do ciclo de contratação e gestão — ou seja, os mecanismos concretos que reduzem riscos, aumentam a rastreabilidade das decisões e protegem o interesse público.

Organizações Sociais, governança e o desafio do controle efetivo

A discussão sobre Organizações Sociais tende a oscilar entre duas percepções: a de que o modelo pode ampliar flexibilidade gerencial e a de que ele pode acentuar vulnerabilidades de controle, caso não haja capacidade técnica e institucional de fiscalização. O projeto do ODSS adota uma chave pragmática: independentemente do juízo abstrato sobre o modelo, a variável crítica é a qualidade da governança pública que o cerca.

Esse ponto dialoga com a jurisprudência constitucional. Em decisão paradigmática sobre o tema, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade do modelo de Organizações Sociais, mas reafirmou que o Poder Público deve assegurar observância a princípios como impessoalidade, publicidade e moralidade, inclusive por meio de procedimentos públicos e objetivos para qualificação e contratação. O curso, nesse sentido, se propõe a traduzir esses comandos gerais em rotinas administrativas capazes de orientar a atuação municipal de maneira defensável, transparente e preventiva.

A estrutura do curso: cinco módulos e o ciclo completo do contrato

O conteúdo do curso está organizado em cinco módulos, concebidos como uma trilha de aprendizagem que acompanha o ciclo completo da contratação: do marco legal ao regime de responsabilização.

  1. Introdução às Organizações Sociais e ao marco legal
    O primeiro módulo apresenta o modelo das OS no direito brasileiro e discute suas finalidades, limites e implicações institucionais. A Lei nº 9.637/1998 é utilizada para delimitar a lógica da qualificação e do vínculo de parceria, situando a atuação das OS em atividades de interesse público. Paralelamente, são discutidas as exigências de procedimento público e objetivos de seleção, em consonância com os parâmetros constitucionais afirmados pelo STF.
  2. Planejamento da contratação
    O segundo módulo concentra-se na fase interna, onde se definem o objeto, a justificativa, o desenho do arranjo, o dimensionamento de custos e os indicadores. A Lei nº 14.133/2021 reforça o planejamento como eixo da contratação pública e como base racional para a gestão de riscos e para a própria responsabilização. Na prática, é nessa etapa que se evita a contratação “por impulso”, com objeto mal definido, metas imprecisas e baixa verificabilidade — fatores que, depois, dificultam fiscalização e abrem espaço para conflitos e irregularidades.
  3. Processo licitatório e publicidade no PNCP
    O terceiro módulo aborda os deveres de publicidade e transparência, com ênfase no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) como instrumento estruturante de divulgação e rastreabilidade de atos, documentos e contratos no regime da Lei nº 14.133/2021. A transparência é tratada como ferramenta de prevenção: ela reduz assimetrias informacionais e favorece controle social e institucional sobre escolhas administrativas.
  4. Fiscalização e gestão contratual
    O quarto módulo desloca o enfoque para a execução do contrato: como acompanhar metas, aferir desempenho, registrar evidências, controlar pagamentos, monitorar pessoal e reagir a não conformidades. O Decreto nº 11.246/2022 é utilizado para organizar a compreensão das atribuições de gestores e fiscais, ajudando a transformar fiscalização em rotina institucional, e não em resposta tardia a crises. É também nesse módulo que o projeto reforça sua vocação preventiva para irregularidades trabalhistas, reconhecendo que muitos contratos com OS envolvem grande contingente de trabalhadores e, por isso, geram riscos específicos de descumprimento de obrigações laborais.
  5. Responsabilização, penalidades e boas práticas de integridade
    O quinto módulo fecha o ciclo: quando e como responsabilizar, quais medidas corretivas podem ser adotadas, quais sanções e respostas administrativas são compatíveis com a Lei nº 14.133/2021 e como estruturar boas práticas de integridade para reduzir reincidências. Aqui, o curso trabalha com a lógica de “aprendizagem institucional” da contratação: mecanismos de integridade não existem apenas para punir, mas para corrigir e prevenir.

Manual digital prático e acesso aberto: extensão com entrega permanente

Além do curso, o projeto prevê a elaboração de um manual digital prático de compliance municipal, de acesso livre. O manual funcionará como guia de orientação para municípios no acompanhamento das contratações e na prevenção de irregularidades trabalhistas, com linguagem voltada à aplicação cotidiana: listas de verificação, recomendações de fluxos mínimos, matriz de riscos, evidências de fiscalização e protocolos de resposta.

Esse tipo de produto é particularmente importante para municípios com alta rotatividade administrativa ou com estruturas enxutas de controle interno: ele consolida memória institucional, padroniza procedimentos e reduz dependência de conhecimento informal. A lógica é simples: cursos formam pessoas; manuais sustentam rotinas e preservam o aprendizado na organização.

Coordenação acadêmica e parceria institucional com o MPT-RN

O plano de trabalho será liderado pelos professores Rafael Lamera Giesta Cabral e Lizziane Souza Queiroz Franco de Oliveira, ambos vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD) da UFERSA. A parceria com o MPT-RN confere densidade institucional ao projeto ao aproximar a pós-graduação de um eixo de atuação pública de alta relevância social: prevenção de violações de direitos no mundo do trabalho e fortalecimento de capacidades estatais para fiscalização e responsabilização em contratos que mobilizam força de trabalho em escala.

Nesse desenho, a extensão universitária é tratada como ponte entre conhecimento jurídico e gestão pública: um esforço de tradução de normas, princípios e jurisprudência em instrumentos e práticas que melhorem a governança municipal, ampliem transparência e reduzam riscos de dano social.

Impacto esperado: integridade como proteção do serviço e dos direitos

Segundo a coordenação do ODSS, a iniciativa busca apoiar municípios do semiárido no fortalecimento de sua governança pública, assegurando maior transparência nas contratações com Organizações Sociais e prevenindo riscos associados a falhas de planejamento, fiscalização e execução contratual. Ao priorizar formação e produtos práticos, o projeto tenta enfrentar problemas recorrentes observados em contratações complexas: baixa rastreabilidade de decisões, fragilidade de indicadores, fiscalização insuficiente e dificuldade de responsabilização.

Em termos mais amplos, o curso e o manual reforçam uma ideia-matriz: integridade na contratação pública é também proteção da continuidade do serviço essencial e dos direitos sociais que dependem dele. Quando a contratação é mal planejada ou mal fiscalizada, o prejuízo pode ser duplo — para o erário e para o trabalhador que está na ponta do serviço — e quase sempre atinge, ao final, a população usuária.

1 de março de 2026. Visualizações: 31. Última modificação: 04/03/2026 14:51:48